Quem é você na fila do pão?




Vem cá: em que sonho mais louco você se viu jogado em meio a uma pandemia?

Mas de jeito algum eu imaginei, ainda no final de 2019, que viveria este caos diário que preparar aula online, arrumar a casa, prestar atenção em sintomas, passar álcool gel, cozinhar, arruma a casa de novo, acompanhar as crianças nas aulas online, debater sobre a abertura do comércio no grupo de WhatsApp, fingir ser feliz e não brigar quando dizem que é só uma “gripezinha”, convencer o amigo que aquela mancha é só uma urticária, que sua mãe tem que ficar em casa, imaginar em que momento o Corona vai me atacar quando sair para passear com a dog, escrever capítulos de um livro, dar aulas online, convencer aluno que está tudo bem, que a profissão vai sobreviver e, depois desta maratona, ainda ficar vivo antes de ir dormir pensando que amanhã será de novo a mesma coisa.


E esta descrição minha é só de um dos personagens que surgiram na pandemia. Há muitos outros e muitas opções para escolher também se você ainda está meio que escondido embaixo do lençol achando que tudo vai acabar hoje à tarde.

Tem a galera que reinventou a casa. O que antes era só um lugar para dormir, agora virou uma meca do “faça você mesmo”. Em cada cômodo uma experiência. No quintal, ele montou uma hortinha e o jardim agora tem até borboleta; nos quartos, pelo menos uma parede já foi pintada; as maçanetas nunca funcionaram tão bem e os armários, cara, quanta diferença. Estão arrumados por cores e utilidade! E ainda tem o laboratório Master Chef da cozinha todo dia. Pão caseiro agora é feijão com arroz. Já tem gente partindo para drogas mais fortes como pão de fermentação natural e suas intermináveis 36 horas de preparo. Não mexe no meu levain!


E a classe dos estudantes? Essa está bem arrumada mesmo. Eu sou professor universitário e digo uma coisa: toda minha admiração para estes heróis da pandemia. Ao lado dos profissionais da saúde, merecem estátuas e menções honrosas na Câmara.


De uma hora para outra, o mundo do estudo caiu em cima deles de uma maneira retumbante. E no mesmo dia tem que ler textos online, fazer trabalhos online, assistir aula online, fazer contas para pagar a mensalidade, online, virar um trator para cumprir os trezentos trabalhos que foram passados, online, porque vou dizer, no começo os professores ficaram tão perdidos com as aulas, também online, que para ganhar tempo e entender essa parada nova foram dando trabalho, leitura, atividade e, ainda, pasmem, colocando prazos! E sobre este mesmo coitado estudantil ainda recaem presenças do mal: o irmão pentelho que divide o quarto e o computador, a tia solteira que veio morar em casa, o pai que está em home office sem esperança e que intensificou a cobrança para que você seja alguém na vida (se ainda houver vida), a mãe que reza nas lives da igreja o dia inteiro e faz todo mundo acompanhar o terço no final do dia, e a irmã sofrência que resolveu trazer o namorado para acompanhar o Bruno e o Gusttavo Lima chaparem ao vivo. E daí ele vai para o Google ver se há algum tutorial para sobreviver a isso, encontra como resposta mais de 11 milhões de indicações sobre como ser um aluno produtivo na quarentena. Não é fofo? É ou não é para chorar em posição fetal no banho? O parágrafo ficou grande, mas esta descrição merece. Todo meu amor a vocês, estudantes.


Mas eu só quero ficar longe mesmo é dos cavaleiros do apocalipse, que acompanham seitas estranhas por aí e acreditam que os cientistas, a imprensa e o mundo racional foram vendidos e que o lance é deixar a seleção natural de Darwin agir. Os mais fracos, idosos, pobres e desavisados em geral vão morrer mesmo. E, daí?


Como diria meu amigo Renato Russo: “Festa estranha, com gente esquisita”.

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